279

Dois sete nove. Esse é o número do busão que eu pegava todo santo dia em Diadema. Foi dentro desse busão que trabalhei meus medos e valorizei a independência. Gargalhei, chorei e por muitas vezes fiquei irritada. 

Aprendi rotas, fiz amizades. Cheguei a pagar pela passagem cinco vezes em um só dia. Conheci o poder da resiliência, enxerguei o meu interior. Me sentia esgotada por passar mais tempo em pé dentro do ônibus, manipulando a minha mente, do que necessariamente estudando, trabalhando ou me divertindo. 

O 279 me abriu portas, mas não digo isso somente no sentido literal da frase. Também não tenho a intenção de romantizar esse apreço e admito não sentir saudade de esperá-lo por mais de duas horas no ponto, dar sinal e ver gente se equilibrando nas escadas  – de tão cheio. 

Não sinto falta das vezes que ele passou reto – visto que não cabia mais ninguém. Não sinto mesmo. No entanto, me sinto nostálgica ao recordar o passado e relembrar as boas lembranças que tive na companhia da minha mãe, primas e dos meus colegas. 

Quero registrar um salve para o Thiago Jácome, Felipe Finoti, a Brenda Anna, Raira Rodrigues e a pequenina Hellen. Claro, existem muitos outros que encontrei ao longo do dia e que tornaram o meu trajeto muito mais alegre e suportável. Vocês são fodas.

Teria como não mencionar a terceira idade? Sem chance. Os idosos dominam essa linha e era sempre um prazer poder escutar as suas histórias. Taí uma coisa que eu sou boa – muito mais do que escrever ou falar: escutar. Escutar pessoas e pacientemente interagir.  

Sinto saudade até das reclamações sobre o prefeito da cidade, sobre os bailes funks e as aglomerações de carros e motos ao som de buzinas extremamente barulhentas. De assistir o nascer do sol através da janela e ter certeza de que esse seria mais um dia abençoado. 

Sinto saudade de observar as pessoas ao meu redor e perceber as suas singularidades. Notar o cansaço, a disposição e a garra de todos, todos os dias. Saudades de sentar na última fileira e quase “voar do banco”, após o motorista pular a lombada em frente ao Zoológico de São Paulo (era perigoso, reclamava horrores mas logo em seguida estava rindo junto com o desconhecido do lado). Enfim, de estar sempre ouvindo uns raps e compreender, em cada refrão, a mensagem dos caras. 

Valeu 279, por me ajudar a chegar em tantas palestras, shows e inúmeros lugares que facilitaram a criação da minha perspectiva sobre o futuro. Espero, honestamente, que mais de você sejam incluídos nessa rota – diminuindo o tempo de espera e de estresse dos trabalhadores. Espero também que a Dona Marlene que ficava conversando comigo às 5 da manhã  – no breu do escadão da Carandá  – até que você passasse e eu estivesse segura, esteja bem. Sinto saudade porque você faz parte da minha história e sou grata por admirar o percurso. 

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