Um desabafo sobre a vida

Se você está cansado dos meus textos sobre propósito e pandemia, saiba que eu também estou. E é por isso que escrevo esse texto hoje. Na verdade ele vem sendo escrito sozinho, há semanas, só que na minha cabeça. E se você acha que durante os próximos parágrafos as palavras “proposta” e “pandemia” não serão citadas, você é um completo iludido ou inocente. 

Sim, mais um texto sobre isso (mas de uma outra perspectiva). É tudo o que consigo escrever agora. Não importa qual assunto eu pense ou converse com alguém, no fim, tudo se resume a essas duas palavras – e ouso afirmar que será assim por mais alguns meses. 

Quase todos os dias eu me faço a mesma pergunta: “O que diabos estou fazendo da minha vida?” e em quase todos os outros que restaram, estou tentando respondê-la. Quando não tento, as respostas simplesmente aparecem e me deixam boquiaberta de tão precisas. 

Semana passada, por exemplo, me peguei pensando em mudar de profissão e concluindo que, aos 24 anos de idade, isso seria tarde demais. Parece loucura ter esse tipo de pensamento, mas a verdade é que a sensação de estar sempre atrasada, mesmo sabendo que não estou, me persegue constantemente. Posso até afirmar que eu e ela somos quase melhores amigas, já que passamos aproximadamente 15 horas por dia (ou mais) juntas.

Posso escutar uma playlist todinha com os meus reggaes favoritos, acender um incenso no quarto, meditar durante o banho, conversar com as minhas pessoas prediletas do mundo e mesmo assim sei que vou terminar o dia me questionando sobre tudo aquilo que estou fazendo ou não fazendo e isso é um inferno (e olha que eu nem gosto de escrever ou falar sobre isso). 

Os questionamentos são sempre a respeito de todas as áreas da minha vida. Questiono a evolução do meu inglês, o preço que estou pagando por estar longe da família e de pessoas queridas, o afastamento da minha área de formação e o atual emprego. Questiono o passado, o presente e o futuro (é eu faço isso, mesmo afirmando a importância de viver o agora). Eu sou contraditória ou apenas uma metamorfose ambulante, como diria o sábio Raul. 

E é aqui que eu volto a falar de propósito. Após alguns anos tentando encontrar o meu, tô começando a perceber que propósitos são escolhas e que a chance de surgir um guia de orientações me apontando o caminho certo para o tão sonhado despertar espiritual e a libertação dos sofrimentos, é quase nula. 

Sinto que escolho meu propósito todas as vezes que escolho, também, seguir o meu coração. Todas as vezes que unifico coisas que amo versus coisas que me fazem sentir útil. O jornalismo é uma delas. Todas as vezes que abro o gravador do celular e vejo as dezenas de áudios salvos com nomes de entrevistados e lembro de suas histórias compartilhadas, da paciência e empatia ao ouvi-los, sinto meu coração aquecido, sinto-me alinhada ao meu propósito. Então por que pensar em desistir de algo que está vivo em mim, mesmo que não formalmente? 

Ainda sobre a semana passada. Precisei chegar mais cedo no trabalho e encontrei uma colega da empresa que não via há meses. Svetlana deve ter o dobro da minha idade, sempre que a vejo, ela comenta sobre o seu filho, suas dores estomacais e reforça o fato de que eu não devo parar de estudar tão cedo (se eu encontrá-la três vezes por semana, ela vai conversar comigo sobre esses três assuntos as três vezes). 

Eu poderia perder a paciência, passar a ignorá-la, mas no fundo eu sinto que ela só quer e precisa ser ouvida. Em um desses bate-papos eu precisei interrompê-la para ir ao mercado, pois estava morrendo de fome. Na volta, trouxe um chocolate minúsculo para ela e na manhã seguinte, quando cheguei no escritório, me deparei com um cartão postal da Lituânia (sua terra natal), um chocolate do país e um mini baú de pedras com um amuleto “sapinho da sorte” dentro. Me senti emocionada, feliz, surpresa e ao mesmo tempo alinhada com o meu propósito pessoal. Nesse momento, senti o que sinto após entrevistar alguém e conhecer a sua história. Senti o que sinto após a troca, a generosidade. 

Nessas horas que a pergunta: “O que diabos estou fazendo da minha vida?” volta a perturbar minha mente e a resposta, dessa vez, é automática e carregada de afirmações que eu só percebo após me sentir assim: em paz e com a sensação de “missão cumprida”. 

Já não sei mais se estou falando sobre as minhas inseguranças ou a respeito dos meus medos. Sobre dar passos no escuro e a dificuldade de tomar decisões sem saber o que está por vir… mas sei que Dublin, essa cidade que abriga tantas pessoas de tantos países e culturas diferentes, me conecta com irlandeses, indianos, africanos, lituanos, romenos, poloneses e tantas outras nacionalidades, me transforma todos os dias um pouco mais. Expande a minha visão e me ensina que é tudo sobre servir, sobre parar de tentar negociar rotas. 

Em resumo: é tudo sobre me conectar com pessoas e não encarar a mudança, especialmente durante a pandemia, como uma inimiga. Existe um lugar, dentro de cada ciclo da vida, que me cabe – que cabe cada um de nós – e que está pronto para abraçar todas as minhas versões construídas ao longo de diferentes fases.

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