História pra boi dormir

São quase dois anos morando no exterior. Quase dois anos admirando, fielmente, brasileiros que largaram tudo para viver aqui ( ou em outros países). Não importa qual cidade da europa eu decida conhecer, sempre terá algum brasileiro por lá, trabalhando muito ou estudando, trabalhando e estudando, viajando, vivendo…

Infelizmente esse texto não é sobre a garra e perseverança de todos nós, brasileiros. Mas é sobre aqueles que “cresceram” um pouquinho aqui fora, e esqueceram de levar consigo a empatia e a ética. Já tive chefes de diversas nacionalidades na Irlanda, mas quase todos os que causaram problemas e falharam com o profissionalismo foram os brasileiros. Não deveria ser assim, né? Mas isso é frequente. 

Recentemente precisei fazer horas extras. Era necessário um número grande de pessoas para trabalhar. Se tratava de um deep cleaning em repúblicas. Geralmente, quando se refere a limpeza, os brasileiros são os mais requisitados para a função. Dessa vez, devido a pandemia, e o baixo fluxo de intercambistas no país, houve a necessidade de contratar qualquer pessoa que estivesse disposta a trabalhar. Foram contratados (além de sul-americanos) em média 11 Somalis, nove realmente começaram e hoje, apenas três seguem trabalhando.

De fato, a limpeza que os brasileiros fazem é incomparável. Mas, acredito eu, que se alguém não está rendendo o suficiente (independentemente da nacionalidade), a melhor opção (após a tentativa do diálogo) é demiti-la, infelizmente. A justificativa é óbvia. Bem, não tão óbvia para os chefes brasileiros (que ao invés de trabalhar a integridade e transparência preferem simplesmente maltratar as pessoas). 

Como é que tem gente que consegue ser malvada com imigrantes que estão apenas tentando sobreviver? Eu tô falando de mulheres, refugiadas, que já passaram por tantas formas de violência em suas vidas… De mulheres (uma delas com mais de 60 anos de idade), que estão sendo jogadas de um canto para o outro, trabalhando pesado, com vestimentas que quase não permitem movimentos. Vestidos longos, feitos de algodão, lenços que rodeiam a sua cintura e chegam aos ombros, lenços em seus cabelos e uma temperatura de mais de 20 graus em um país que normalmente faz um. 

O meu cansaço físico e mental nunca serão maiores que o meu coração. Jamais vou conseguir presenciar cenas como essas e não me revoltar. E não ajudar. E não sentir vontade de chorar. E não sentir vontade de estender a mão para elas e dizer “eu estou aqui, se precisarem de ajuda, eu realmente estou aqui” mesmo sabendo que elas não entendem sequer uma palavra do que eu disse, por não falarem inglês. 

Não aguentei continuar. Não aguentei ouvir “Não podemos mandá-las embora e talvez sofrer retaliação de xenofobia, entende?”. E a pressão psicológica, não conta? E o desdém? Claro que esse não foi o único motivo que me fez desistir do shift… e não, não entendo. Não quero entender pessoas que tentam justificar o injustificável. 

Além de todo esse esgotamento psicológico, estamos vivendo uma pandemia. Não existem cautelas com os profissionais da limpeza, sabe? Eu tô falando da limpeza de apartamentos que foram deixados em situações precárias. De entrar em contato com a falta de higiene de adolescentes ( e de lidar com a falta de empatia dos empregadores), que não estão nem aí se vamos nos contagiar ou não. Ser otimista com o mundo, sempre me deu forças para seguir acreditando em dias melhores, mas essa história de que as pessoas serão melhores após essa catástrofe é, com todo respeito, história pra boi dormir.   

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